quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Hoje tem Chico Pio!


Em meados da década de 70, das antigas mesinhas da Beira Mar, eu já ouvia falar pelas brisas do Mucuripe de um cara que acontecia lá nas bandas do saudoso Bar do Anísio. Não tanto após, num show no Zé de Alencar, onde vários artistas se apresentavam – acho que era o da despedida do Canal 2 – ouvi um grito, seguido de assobios, pedindo por ele. Esse artista me causava curiosidade, lembro.

Tempos depois, nos encontramos e, numa saída com o Fagner e a turma toda, Naná Vasconcelos sugeriu a nossa parceria na arte da boa natureza de unir letra e música. Tornamo-nos parceiros.

Desse virtuoso compositor, hoje eu digo que ele é a sua própria arte. Quando abraça o violão, solta seu vozeirão, faz manar as mais variadas canções e dá até a impressão de ser fácil a faculdade de compor. Aprumado, se eleva aos sons, qual fera a cuidar do seu rebento. Todavia, simples e manso em seu ofício, constrói e desperta sentimentos! 

Pois bem, esse autêntico menestrel é o Chico Pio, amigo do peito e a quem digo: Tem artista que passa uma vida inteira tentando acontecer, o Chico acontece todos os dias! 

Totonho Laprovitera

Pôr do sol


Pôr do sol
(Totonho Laprovitera) 

Em rebento de aquarela, 
na risca do horizonte, 
com a derradeira luz do dia, 
Deus navega e anuncia 
a infinita arte da pintura
da natureza do pôr do sol 


(Foto: Totonho Laprovitera)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A casa do vizinho


Nos anos 90, projetei a residência de um casal amigo, quando tudo, com muito gosto, foi tratado cuidadosamente em cada mínimo detalhe da edificação, em um exercício arquitetônico sem par. 

Concluída a obra, como tudo que é bem planejado, a casa ficou quão projetada foi. Uma beleza de trabalho. 

Mas, meses depois, por acaso, eu me encontrei com o cliente e soube do grande rebu ocorrido: quando ele foi obter o “habite-se” da casa na Prefeitura, constatou-se que a mesma havia sido construída no lote errado! 

- Pois é amigo, levantamos a nossa casa em terreno alheio... 
- Que coisa! E aí?! 
- E aí que eu entrei em parafuso! 
- Não é pra menos. 
- Mas, esfriei a cabeça e localizei o proprietário do lote. 
- Falou com ele? 
- Falei. Perguntei se ele me venderia o terreno. 
- E ele? 
- Disse que não podia, porque o havia comprado como investimento para a filha. 
- E você? 
- Pedi para falar com a filha, é claro. 
- E ele? 
- Disse que não adiantaria, pois ela só tinha dois anos de idade. 
- Vixe... 
- Aí, eu gelei. Mas me deu um estalo e resolvi abrir o jogo. 
- Êita... 
- Abri meu coração e disse que tinha investido tudo o que eu tinha na casa e que agora eu estava nas mãos dele. 
- E ele? 
- Ele me perguntou qual era o meu lote e eu disse que era vizinho ao dele. 
- Que mais? 
- Eu perguntei quanto ele queria pelo lote e ele me surpreendeu! 
- Como? 
- Disse que não me venderia, mas que eu fizesse a permuta dos lotes. Desde que todas as custas cartoriais corressem por minha conta! 
- Que cara bacana! 
- Demais! 
- Tá vendo como ainda tem gente decente no mundo?!
- Pois não é?! 
- É, pensando bem, a humanidade ainda tem jeito.
- Claro que tem! Taí uma prova disso!

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Mãe Júlia

Mãe Júlia.

Hoje, dia consagrado à Nossa Senhora da Assunção, padroeira da cidade de Fortaleza, lembro que Iemanjá também é celebrada. 

Falar em Iemanjá, é recordar de Mãe Júlia – a mãe primeira da Umbanda no Ceará – personalidade de grande importância na peleja pela liberdade religiosa cearense.

Nos anos 50, Mãe Júlia (?-1984) guiou um terreiro de Umbanda no Bairro Benfica, quando juntou adeptos de crenças afro-brasileiras em uma associação – Federação Espírita de Umbanda, em 1954 – e ajeitou com as autoridades a liberdade de culto, combatendo a perseguição pela polícia aos praticantes da Umbanda.

Portuguesa de nascimento, Mãe Júlia era filha de Ogum. Do bem, destacou-se pela liderança e coragem de enfrentar os diversos desafios para a expansão da Umbanda em Fortaleza. 

Foi Mãe Júlia que começou a fazer as festas de São Jorge (Caboclos) e de Iemanjá na Praia do Futuro, quando era esburacada, sem urbanização e de difícil acesso. 

(Foto: Acervo de Mãe Stela)

Dr. Gaubi

Dr. Gaubi.

Assistindo ao vídeo com Dr. Gaubi e Cezzinha do Acordeon, na homenagem à Dominguinhos em Alagoas, matutei: Por ter praticado o ofício, São Lucas é o padroeiro dos médicos, segundo diz São Paulo aos Colossenses (4,14): “Saúda-vos Lucas, nosso querido médico”. E, além de médico, ele também era músico, pintor e historiador. 

Pois bem, discípulo de São Lucas, Gaubi é médico – “de homens e de almas” – cantor, músico e pinta o sete cometendo histórias de amizade. 

São Lucas, rogai por nós! Gaubi, cantai por nós! 

(Foto: David Almeida)

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Tortora, Tortorella!

Totonho Laprovitera e o primo Pietro Guerrera, em Praia a Mare, 1994.

Já faz algum tempo. 

Hóspedes dos queridos primos calabreses Angelina e Pietro Guerrera, eu e Elusa passamos alguns dias em Tortora, ao sul da Itália. 

De Roma, desembarcamos na comuna de Maratea, à noite, onde de longe avistamos Pietro que já nos aguardava na estação ferroviária. De alinhado porte, ele trajava um longo e bem caído capote escuro e chapéu de massa de longas abas. Acompanhava-se de um atarracado auxiliar, vestido de jaqueta de couro marrom e boina inglesa. 

Firme e em silêncio, Pietro me tomou as malas e entregou para o assistente. Em sinal de boas-vindas, pegou-me pelos ombros e me beijou as faces, como reza a tradição calabresa. Respeitosamente, com um aperto de mão cumprimentou Elusa e nos conduziu até seu carro – um Fiat Uno de 4 portas, branco, com bancos recobertos de capa de malha azul estampada com simpáticas figuras de Mickey Mouse. 

Seguimos à Praia a Mare, domicílio dos Guerrera, onde Angelina nos aguardava para o lauto jantar por ela preparado, com deliciosas entradas, pratos e sobremesas. Para beber, um vinho de excelente qualidade, produzido em campagna de propriedade da família. 

Antes de tudo isso, Pietro sentenciou: - “Totó, tenho duas exigências a lhes fazer em nossa casa.” Curioso, perguntei quais eram e ele prosseguiu: - “A primeira é que vocês ocupem o nosso quarto, o principal da casa. Eu e Angelina iremos para um outro. A segunda, que vocês façam todas as refeições em nossa bendita cozinha, que é o lugar sagrado de nossa máxima familiaridade.” 

Acatamos a cultura familiar tortorese e nos sentimos em casa. Enquanto Angelina insistia em reforçar o passadio de Elusa – “Você é tão magrinha... Tem que engordar! Mariuce, sua sogra, ficará orgulhosa”, dizia ela – eu e Pietro enfrentávamos mais uma garrafa do caseiro vinho. E Elusa a repetir que eu sustasse a bebida, para não causar má impressão aos primos. 

Bem, no dia seguinte fomos à peixaria da praia comprar vongole e depois subimos à antiga Tortora, onde ao longo do sinuoso caminho me chamavam a atenção os suntuosos cartazes, com rebuscadas letras negras e douradas, de anúncio mortuário. 

Totonho Laprovitera, na histórica escadaria.

Chegando ao Centro Histórico da urbe, vi o silêncio tomar de conta das vias e praças. Nelas, serenamente, passavam as mulheres de luto fechado, ainda pelas perdas familiares da Segunda Guerra Mundial. Alguns curiosos chamavam o primo Pietro e, sussurrando, perguntavam quem eu era, o que fazia e o que eu queria por lá. Visitamos a casa da vovó Marianna e, sentado em sua histórica escadaria, fui fotografado em memorável retrato. 

No dia seguinte visitamos em uma das principais praças públicas de Praia a Mare o “Monumento aos Heróis da Primeira Guerra Mundial”, onde consta o nome de tio Angelo Laprovitera. De lá, fomos a um antigo bar da cidade, mas não ficamos porque a Elusa estava conosco e o estabelecimento não permitia a presença feminina. 

Para estender o passeio, seguimos à vizinha Paola, com direito a parar no “Il Brigante”, um conhecido entreposto de venda de souvenires. Quando estacionamos e descemos do carro, indaguei ao Pietro se seríamos breve no lugar, pois ele havia deixado o motor ligado. “Não, não, é que esqueci de desligar...”, e voltou ao veículo. 

Totonho Laprovitera - Tortora - 2004 - AST - 30 x 40 cm.

Por fim, retornamos ao lar dos Guerrera, afivelamos as malas e fomos à estação ferroviária de Praia a Mare. Emocionados, despedimo-nos do velho primo Pietro, embarcamos no trem e retornamos à Roma, já com a vontade de voltar à “Tortora, Tortorella!” 

(Fotos: Elusa Laprovitera)

sábado, 12 de agosto de 2017

Chá de burro

Cena urbana. Foto de Zezinho Ponte.

Quando espiei a foto de autoria do Zezinho Ponte, do vendedor de chá de burro, não tive dúvida, publiquei na Internet! 

Ora, aí o jornalista Luiz José dos Santos me contou que na Fortaleza dos anos 60, o tal chá era vendido por um andarilho ambulante que carregava pelas ruas, penduradas em um bordão aos ombros, duas latas de 2 litros: numa, escrito “chá de burro doce”; noutra, “chá de burro salgado”. E era sempre à tardinha, Hora do Angelus, das cadeiras nas calçadas, que aos gritos ele anunciava: - "Olha o chá de burro!" 

Pra quem não sabe, chá de burro é, nada mais, nada menos, do que mungunzá, uma iguaria feita de grãos de milho cosidos e temperados. 

Agora, diz o bancário Lincoln Fontenele, que “o melhor chá de burro do mundo é o de Camocim, vendido no Mercado entre 6 às 10h da manhã. O outro, também muito bom, é o do Euritonio, do Mercado de Caucaia.”

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Pajaraca


Um dos radialistas mais irreverentes e populares que conheci foi Jurandir Mitoso, o popular Pajaraca.

Mitoso, que foi Rei Momo do Carnaval de Fortaleza, em 1965, iniciou a carreira na Rádio Dragão do Mar, na década de 50, como disc jockey. 

Versátil, também atuou como repórter esportivo e até teve um programa de grande sucesso na rádio Verdes Mares, nos anos 70, que abria com a seguinte vinheta musical: - “Jurandir Mitoso existe apenas um e como o JM não pode haver nenhum!” 

Dava o maior valor dizer: - “É caco de corno pra tudo quanto é lado!”

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Sobralidade


Lendo sobre o relançamento do livro “O Cearense”, de Parsifal Barroso, lembrei que a expressão “sobralidade” foi cunhada pelo ex-governador, para exprimir o sentimento de amor e compromisso à cidade de Sobral.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Desenhar errado

Tudo começou quando vi um autodenominado desenhista, sem a menor queda para o traço, querendo por querer ser artista. Aí, eu me peguei do seguinte jeito: Já pensou se eu eu ousasse ser músico, mesmo sem saber tocar direito um instrumento? Certamente, seria uma agonia sem fim, pois a cada pedido para tocar uma determinada canção eu teria que dar uma desculpa bastante convincente. 

Sobre este assunto, então, ocorreu-me a ideia de expor uma linha de desenhos corriqueiros que tenho cometido há algum tempo, intitulada “Desenhar Errado”. 

Nessa série eu busco o exercício do desenho de forma propositadamente errada – qual seria a certa? – para provocar o estranhamento e estimular o espectador a escapulir das convencionais normas do desenho. 

Questionando padrões estabelecidos, eu abandono a perspectiva, deformo figuras, descontextualizo objetos e produzo um divertido convite à crítica visual, numa atitude singular de reconsiderar tudo aquilo que é visto como correto. 

Vai ver que com esses desenhos eu vou terminar virando músico.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Corecon-CE

Francisco Ângelo De Francesco.

Meu primeiro emprego foi em 1978, no Corecon-CE – Conselho Regional de Economia do Ceará – quando era presidido pelo economista Francisco Ângelo De Francesco – uma das pessoas mais bem-educadas que já conheci – e funcionava em uma sala, nos alto de um prédio localizado na Rua Sena Madureira, no Centro de Fortaleza. 

Lá, eu trabalhava com a dona Rosilda – que gerenciava o dia-a-dia da repartição – e a jovem Giselda – que depois veio a ser referência de servidora da casa. 

Como estudava pela manhã, o meu expediente de trabalho se dava no período da tarde e era um corre-corre danado. Eu cuidava das correspondências e da emissão das carteiras profissionais, batidas à maquina de escrever. Circunspeta, dona Rosilda organizava toda a documentação do Conselho e a agenda do presidente, enquanto Giselda fazia de um tudo. 

Demonstrando grande admiração, dona Rosilda não cansava de enaltecer o antigo presidente, economista Zacarias Feitosa da Costa, sempre lamentando o seu precoce falecimento há pouco tempo. 

Giselda era calada e por demais tranquila. Desempenhava diversas tarefas, sempre acompanhadas pela dona Rosilda. Com elas eu me dava bem e até hoje lembro das duas com desvelo. 

Foi um tempo bom, onde eu aprendi muita coisa boa, principalmente com o primo Angelino, que o tinha como padrinho.

domingo, 6 de agosto de 2017

Otacílio de Azevedo


Pintor, desenhista e poeta, Otacílio de Azevedo (1892-1978) foi membro da Academia Cearense de Letras e fundador da Sociedade Brasileira dos Amigos da Astronomia.

Nascido na zona rural de Redenção, Otacílio foi morar em Fortaleza em 1910, aos 18 anos. Autodidata, começou nas artes plásticas como pintor de tabuletas de cinemas e de letreiros de lojas. Com o passar do tempo, tornou-se um grande paisagista. 

Na loja Fotografia N. Olsen, onde trabalhou, conheceu e conviveu com artistas plásticos e escritores cearenses. Dentre eles, Ramos Cotoco, Gérson Faria, Clóvis Costa, Paula Barros, Herman Lima, Quintino Cunha. A partir de então, desenvolveu suas habilidades de pintor e poeta. 

Participou com outros artistas do Salão Regional, em Fortaleza, nos anos de 1924 e 1934. Com Gérson Faria, Pretextato Bezerra e Clóvis Costa, fundou o primeiro ateliê de pintura na cidade. Foi sócio fundador do Centro Cultural de Belas Artes (CCBA) que virou a Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), onde chegou a ser vice-presidente. Participou dos I, II e III Salões Cearenses de Pintura – em Fortaleza, nos anos 1941, 1942 e 1944 – e de diversas edições do Salão de Abril. 

Além de paisagista, Otacílio de Azevedo era grande retratista, sendo de sua autoria vários retratos de governantes cearenses, hoje expostos no palácio do Governo. Escreveu o livro “Fortaleza Descalça”, no qual apresenta de modo bem humorado, traços biográficos dos artistas e escritores com quem conviveu. 

Otacílio de Azevedo é pai do astrônomo Rubens, do historiador Sânzio e do pesquisador, colecionador e jornalista Miguel Ângelo, o Nirez.

É muito artista!

Eu sei que a coisa é antiga, mas na minha santa ignorância só peguei a notar quando na época dos showmícios vi político dar autógrafos, como se artista fosse. E assim se achava.

Foi num tempo em que muitos candidatos chegaram até a ser eleitos pelas atrações que traziam aos palcos das ilusões, onde o circo já bastava ao povo tão sem pão. 

Pois é, as vaidades daqueles ditos políticos – que desvaliam a saudável e séria essência da arte política! – valeram para reforçar o equivocado paralelo que eu tanto abomino: “É muito artista!”